Vida e morte de João Ninguém

Blog de repórter
Memória da formação
Data da publicação original:
2/8/2007
.
Veiculado originalmente por:
.
Vinícius Sgarbe
,
especial para
Lab Jornalismo 2030.
Imagem:
Ahmed Adly
Ahmed Adly
/
.

A morte mexe com o imaginário das pessoas. Talvez por essa razão haja tantos leitores assíduos dos obituários nos jornais. Por descuido ou por maldade, na edição de hoje morreu um quase homônimo do mestre trágico Nelson Rodrigues. “Nelson Rodrigues Chaves, aos 72, casado com Teresa da Silva Rodrigues. Deixa filhos.” (Folha de S. Paulo, 17/06/07, pág. C6)

Era brasileiro? Qual sua profissão? Seria médico, engenheiro ou pipoqueiro? Talvez nem trabalhasse e ocupasse todas as tardes na janela, junto a uma máquina de escrever, reportando a desgraça alheia e guardando os papéis em uma caixa de papelão, em cima do guarda-roupa. Ou ainda estivesse há vários meses convalescendo, depois de uma cirurgia no intestino, quando descobriu ser portador de uma doença degenerativa que o levou à morte três meses depois.

Terá traído a mulher? E se o fez, gostou e repetiu ou se arrependeu e confessou? Roubou algo, atirou em alguém, voou para a Europa, gostava de maçã do amor, comprou algodão-doce para as crianças, teve um vira-lata chamado Bob? Colecionava selos, consertava tudo com Durepox, pintava à mão uma coleção de miniaturas de navios piratas?

Mas a notícia é que o corpo do querido Nelson repousa no cemitério da Vila Nova Esperança, em São Paulo, e por aqui, na terra das Araucárias tem gente que morre também.

Foram 38 para o saco no domingo enquanto Curitiba dormia no sofá depois do almoço. Donas de casa, epiléticos, afogados e indigentes, todos “dessa para uma melhor”, como reza a cartilha da condolência. O dado é do Serviço Funerário Municipal (SFM) da Prefeitura.

Para enterrar João Ninguém

Morrer é trabalhoso e caro. Melhor é continuar vivendo. A reportagem do Comunicare saiu para enterrar João Ninguém. João Ninguém, 23 anos, drogado e prostituído.

A primeira labuta é conseguir o atestado de óbito. Se morrer com assistência médica é de um jeito, se morrer sozinho é de outro, e é diferente de for morte violenta. Repetimos, melhor é continuar vivendo. Como João morreu atropelado, seu corpo foi levado ao Instituto Médico Legal. Depois disso, com o atestado na mão, é a vez de ir ao Serviço Funerário. De lá sai a guia de liberação de sepultamento, documento obrigatório para a inumação em qualquer cemitério da capital. Subtotal: a primeira dor de cabeça.

João Ninguém agora precisa de uma urna funerária – bem, quem precisa é a família. E quando a família não existe ou se preocupa, quem precisa é o Estado. O preço desse produto mórbido é tabelado pelo Serviço Funerário. São 13 modelos e os preços variam de R$ 171 a R$ 3.840. Fora da tabela, existem ataúdes de até R$ 12 mil, em imbuia maciça, cetim, renda e alças douradas. Vai do gosto do cliente, ou do antigo gosto do cliente. Tem para crianças, gordos demais, altos demais.

Vale a pena orientar que se morra sem ultrapassar os 80 quilos, senão é necessário comprar urna especial e isso encarece tudo. Sejamos muito econômicos. A compra do caixão mais barato inclui o transporte do corpo até a funerária, o tamponamento – como se chama encher o sujeito de algodão -, a ida para o velório e finalmente para o enterro. Mas o corpo de João precisa de uma tanatopraxia – um tipo de embalsamento – que custa R$ 470. Subtotal: R$ 641 e algum choro.

Mas João Ninguém foi um homem muito bom e merece ser floreado para receber as últimas homenagens de seus parentes e amigos. Crisântemos de odor pouco agradável a R$ 144, coroa de flores murchas a R$120, e um veuzinho de tule a R$ 15. Subtotal: R$ 279 e uma noite maldormida em cima do defunto.

Campos santos

Em 1790, ouviu-se pela primeira vez sobre a criação de cemitérios públicos em Curitiba. Antes disso, os clérigos eram sepultados em suas capelas, os ricos juntos com os clérigos e os pobres (incluindo os que construíram as capelas) ficavam a sete palmos do chão no lugar que o corpo incomodasse menos. Já o sepultamento suburbano – longínquo da vila e em cova rasa – carecia de autorização na qual a família se comprometia a transladar os ossos dos seus para um campo santo posteriormente.

E nosso querido vai ser enterrado onde? Se nosso amigo fosse indigente, o Estado dá uma lugar no Cemitério Santa Cândida e três anos depois o que sobrou dele vai para o ossário. Se não pudesse pagar, também. Como não é o caso, por R$850 ele tem uma gaveta em cemitérios paroquiais. Mas existem jazigos de até 14 mil para sepultar até três pessoas simultaneamente. Como João Ninguém terá uma despedida modesta do mundo dos vivos, vamos colocá-lo em algum cemitério São ou Santo Alguma coisa. Subtotal: R$ 850 mais taxas burocráticas.

Adeus, João Ninguém. Saudade do dinheiro gasto com sua partida. Total: R$ 1.770, sem nenhum luxo.

Referências

No items found.